O desmatamento aumenta as taxas de malária? Não na África, surpreendentemente


Este artigo consiste na atualização de outro previamente publicado no site do Centro para o Desenvolvimento Global.

O desmatamento não está associado à maior prevalência de malária em crianças em 17 países africanos. E também não está associado ao aumento da febre em crianças em 41 países da África, Ásia e América Latina. Essa é a surpreendente conclusão do nosso artigo publicado recentemente no World Development.

Isso significa que, pelo menos na África, onde ocorrem 88% dos casos de malária, os esforços de saúde pública para reduzir a doença devem continuar a se concentrar em intervenções antimaláricas comprovadas. Estas incluem mosquiteiros tratados com inseticida, pulverizações internas, melhorias residenciais e tratamento clínico imediato, os quais, juntamente com outras intervenções, reduziram a incidência dessa doença fatal em 41% entre 2000-2015.

Para os defensores da conservação florestal na África, existem muitas boas razões para preservar as florestas. Elas incluem armazenamento de carbono, habitat de biodiversidade e fornecimento de água limpa, juntamente com outros bens e serviços. No entanto, a conservação florestal pode não produzir benefícios antimaláricos – pelo menos, não na África.

Uma descoberta surpreendente

Esses resultados, os quais divulgamos pela primeira vez no ano passado em um artigo científico do Centro para o Desenvolvimento Global, podem surpreender aqueles que acompanham a literatura sobre desmatamento e malária. Certamente, está bem estabelecido que o desmatamento pode aumentar os fatores de risco da malária em alguns contextos. Em relação às florestas, verificou-se que as terras desmatadas possuem temperaturas mais altas, mais luz solar e mais água parada, que favorecem alguns tipos de mosquitos transmissores da malária. E, em relação às florestas, também foi descoberto que as terras desmatadas detêm menos insetívoros, mais espécies competindo pelo nicho ecológico e provavelmente menos “hospedeiros não competentes” para diluir a malária. Adicionalmente, a “malária fronteiriça” pode resultar de condições socioeconômicas instáveis associadas ao desmatamento em muitas partes do mundo, incluindo migração rápida, novas exposições humanas e baixa imunidade, baixa qualidade de moradias e disponibilidade escassa de serviços de saúde.

Porém, o aumento do risco de malária pode não se traduzir necessariamente em taxas mais altas de malária em humanos (isto é, “prevalência”). Isso acontece porque existem nuances consideráveis nos efeitos listados acima. Por exemplo, áreas desmatadas podem favorecer algumas espécies de mosquitos, mas não outras; considera-se geralmente que o desmatamento aumenta a densidade de mosquitos transmissores da malária na África e na América Latina, mas reduzem sua densidade na Ásia. Além disso, muitos outros fatores além do desmatamento também afetam a prevalência da malária em humanos, incluindo clima, demografia da comunidade, acesso a unidades de saúde e comportamento das pessoas para evitar a malária.

Onze estudos anteriores revisados por especialistas compararam o desmatamento à prevalência da malária em humanos (ver tabela abaixo). Esses estudos analisaram de forma geral pequenas quantidades de dados em nível municipal a partir de vários países – sete da Amazônia brasileira e um da Indonésia, Malásia e Paraguai, além de um estudo que comparou estatísticas de 67 países em nível nacional. A maioria deles, embora não todos, descobriu que o aumento do desmatamento está associado ao aumento da malária. Dessa forma, foi uma surpresa não encontrar nenhuma associação entre desmatamento e malária em nosso estudo.

Então, por que outros estudos descobriram que o desmatamento leva a taxas mais altas de malária na América do Sul e no Sudeste Asiático, mas não na África? A explicação, conforme especulamos em nosso artigo, pode ter a ver com diferenças na forma como o desmatamento ocorre na África e em outros lugares. O desmatamento na África é amplamente impulsionado pela expansão constante da agricultura rotativa para uso doméstico por pequenos agricultores de longa data em ambientes socioeconômicos estáveis, onde a malária já é endêmica e os níveis de exposição anteriores são altos. Por outro lado, o desmatamento em grande parte da América Latina e Ásia é impulsionado pelo rápido desmatamento para exportações agrícolas impulsionadas pelo mercado por novos migrantes fronteiriços sem exposição prévia. Esperamos que essas hipóteses possam ser apoiadas ou refutadas por trabalhos futuros.

Como chegamos lá

Chegamos às nossas conclusões reunindo enormes conjuntos de dados sobre desmatamento e malária. Nosso conjunto de dados sobre desmatamento incluiu a perda anual de cobertura arbórea entre 2001 e 2015 em 1,5 milhão de células de grade com aproximadamente 5,5 quilômetros nos trópicos, compilado a partir do Global Forest Watch. Também obtivemos dados de testes de malária de cerca de 60.000 crianças na zona rural da África e pesquisas de recordação de febre de cerca de 470.000 crianças nos trópicos rurais realizadas sob os auspícios do Demographic and Health Surveys da USAID (Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional). Combinamos esses dois conjuntos de dados em uma análise de regressão multivariada que também considerou aspectos como temperatura, precipitação, qualidade de habitação, fonte de água, acesso a serviços de saúde, idade da criança e uso de mosquiteiros.

Além de nossa principal comparação entre desmatamento e malária, também testamos hipóteses geradas previamente a partir de estudos anteriores. Cortes menores produziram mais malária por hectare do que cortes maiores? Não. O desmatamento teve um efeito maior em locais com mais florestas? Não. O desmatamento teve um efeito maior sobre a febre na África e na América Latina do que na Ásia? Não.

Originalmente, planejávamos comparar a relação custo-benefício da prevenção da malária através da conservação da floresta com a relação custo-benefício de intervenções comuns, como mosquiteiros e pulverização, conforme medido em anos de vida perdidos ajustados por incapacidade (DALY) por dólar. No entanto, como o desmatamento não afetou as taxas de malária, o benefício de DALY por dólar era essencialmente zero.

Aumentando a credibilidade com um plano de pré-análise

Esperávamos que nossas descobertas fossem controversas, não importa o que descobríssemos. Um estudo anterior sobre desmatamento e malária na Amazônia brasileira gerou discussões acaloradas, com algumas idas e vindas. Por isso, para reforçar a integridade e a credibilidade de nossa pesquisa, utilizamos um plano de pré-análise. Ou seja, anotamos e registramos a data e a hora de todas as nossas hipóteses, métodos, modelos e variáveis com antecedência. Em seguida, nos ativemos a eles.

Planos de pré-análise são comuns e até necessários para alguns tipos de pesquisas clínicas. Porém, eles ainda são novos nas ciências sociais, inclusive na economia, onde a prática comum de pesquisa geralmente envolve testar muitas combinações possíveis de variáveis e especificações de modelos. Se os autores de um estudo desse tipo reportarem apenas testes mostrando resultados favoráveis, enquanto relegam os resultados de outros testes à lixeira digital (“mineração de dados” ou “p-hacking”), eles podem inadvertidamente ou deliberadamente influenciar os resultados para alcançar aqueles desejados. Era isso que queríamos evitar ao escrever e seguir um plano de pré-análise. Publicamos nosso plano de pré-análise no site do RIDIE (Registro para Avaliações de Impacto no Desenvolvimento Internacional) (disponível em duas partes, aqui e aqui).

Compartilhamos sete reflexões sobre o uso de um plano de pré-análise em um artigo complementar, aqui.