Em muitos países, soluções climáticas naturais podem ser as maiores soluções climáticas


Soluções climáticas naturais representam a maior parte das potenciais soluções para a mudança climática em mais de três dúzias de países tropicais, de acordo com novas pesquisas. E, em mais de 20 desses países, abraçar soluções climáticas – isto é, proteger e regenerar ecossistemas como florestas, manguezais e pastagens – seria suficiente para que os países atingissem neutralidade de carbono antes de 2030.

Esses são os resultados de um artigo publicado na revista Philosophical Transactions of the Royal Society B, de autoria de Bronson Griscom e outros vinte co-autores, incluindo eu mesmo. Os resultados podem surpreender leitores nos Estados Unidos e em outros países de clima temperado, onde a energia limpa e o transporte de baixas emissões constituem as maiores alternativas para reduzir a emissão de gases de efeito estufa, e dominam as discussões populares sobre soluções climáticas.

Um artigo anterior, publicado nos Proceedings of the National Academy of Sciences dos Estados Unidos em 2017, descobriu que soluções climáticas naturais são responsáveis por mais de um terço de todas as soluções climáticas com boa relação custo-benefício até 2030 para manter o aquecimento global abaixo de 2°C. Nesse artigo, nós focamos na mitigação climática que poderia ser gerada por soluções climáticas naturais em diferentes países.

Descobrimos que 12 soluções climáticas naturais presentes em 79 países poderiam reduzir de forma eficaz a emissão de gases de efeito estufa num nível equivalente a mais que o total anual das emissões nos Estados Unidos. Um pouco menos da metade de todo o potencial de mitigação tropical a partir de soluções climáticas naturais está na Indonésia e no Brasil, mas existem dúzias de outros países onde as soluções climáticas naturais representam as maiores soluções em potencial.

Se, por um lado, as oportunidades para mitigar as mudanças climáticas por meio da proteção e regeneração de ecossistemas são consideráveis e generalizadas, muitos países tropicais vão necessitar de recursos externos para alcançá-los. Leia mais detalhes a seguir.

Doze soluções climáticas naturais em 79 países poderiam mitigar mais de 6,5 bilhões de toneladas de CO2 por ano. Esses números são para o ano de 2030 e incluem apenas ações com custo estimado menor que US$ 100/tCO2— um nível consistente com o objetivo de manter o aquecimento global abaixo de 2°C (Figura 1). Isso representa aproximadamente um sétimo do total global de emissões de gases-estufa, e mais que as emissões anuais dos Estados Unidos. As maiores oportunidades são a prevenção ao desmatamento (2,8 bilhões de toneladas de CO2 por ano), o reflorestamento (1,2 bilhão de toneladas de CO2 por ano), o plantio de árvores em áreas agrícolas (0,9 bilhão de toneladas por ano), a prevenção da degradação de solos de turfa (0,6 bilhão de toneladas por ano), e a melhoria do manejo de florestas naturais (0,5 bilhão de toneladas por ano).

Isso considerando apenas os benefícios climáticas de proteger e restaurar ecossistemas, antes mesmo de considerar os benefícios para povos indígenas, habitat natural, subsistência, saúde, água, e agricultura. O estudo considera o potencial biofísico, os fatores econômicos, e mesmo condições favoráveis à governança, apesar de não levar em conta a vontade política dos países.

A região com o maior potencial para soluções climáticas naturais é a Ásia, com 2,4 bilhões de toneladas de CO2 por ano em 2030, seguida de perto pela América Latina (2,3 bilhões de toneladas) e pela África (1,9 bilhão de toneladas).

Figura 1 – Potencial de mitigação de 12 soluções climáticas naturais através das regiões

Indonésia e Brasil apresentam o maior potencial para soluções climáticas naturais. Juntos, esses dois países são responsáveis por 2,7 bilhões de toneladas de CO2 por ano a um custo de menos de US$ 100 por tonelada até 2030, ou por 42% do potencial de mitigação a partir das soluções climáticas naturais encontradas em nosso estudo dos 79 países (Figura 2). No Brasil, aproximadamente dois terços do potencial de mitigação vêm da prevenção ao desmatamento. Na Indonésia, um terço vem da prevenção ao desmatamento e um terço da prevenção à degradação das áreas alagadas (turfeiras e manguezais). Os países com o potencial mais próximo a isso são a República Democrática do Congo (5% do total tropical), Índia (4%), e Malásia (4%).

Figura 2 – Potencial de mitigação a partir de soluções climáticas naturais, por país

Soluções climáticas naturais representam a maior parte das soluções climáticas em muitos países. Em 38 países, as soluções climáticas naturais representam mais de 50% do total de emissões nacionais de gases de efeito estufa. Isso torna as soluções climáticas naturais mais significantes do que todas as demais opções de mitigação combinadas (Figura 3). Em 23 desses países, soluções climáticas naturais representam mais do que 100% do total nacional de emissões de gases de efeito estufa. Isso significa que, ao reduzir as emissões de carbono para a atmosfera de forma natural, e ao aumentar as reservas naturais de carbono, países como Costa Rica, Ilhas Salomão, Libéria, Laos e Quênia podem se tornar totalmente neutros em carbono, ou até negativos em termos de carbono líquido, até 2030. De fato, a Costa Rica se comprometeu a tornar-se neutra em carbono até o final do próximo ano, em parte por meio da expansão da cobertura vegetal.

Figura 3 – Soluções climáticas naturais como percentual do total de emissão de gases estufa, por país

As maiores oportunidades para soluções climáticas naturais variam por país. Em 25 países, incluindo alguns dos maiores (ex.: Indonésia, Brasil, RDC, Malásia e Bolívia), as maiores oportunidades vêm da proteção dos ecossistemas (Figura 4). Em 23 países, incluindo a Índia e muitos países africanos, a maior oportunidade vem da melhoria no manejo dos ecossistemas. E em seis países, a maior parte na África, a maior oportunidade vem da regeneração dos ecossistemas. Em 25 outros países percebe-se uma combinação de oportunidades, sem que nenhuma delas prevaleça.

Figura 4. Parcela do potencial de mitigação que vem da proteção, regeneração e gestão, por país.

Muitos países vão necessitar de fundos externos para alcançar soluções climáticas naturais. Existem 26 países onde a quantidade de soluções climáticas naturais, se avaliadas ao custo de US$ 50 por tonelada, excederiam 10% do PIB (Figura 5). Em países como Madagáscar, Laos e Nicarágua, soluções climáticas naturais dificilmente alcançarão seu potencial máximo sem apoio externo. Por outro lado, nesses países, o financiamento externo na forma de pagamentos de carbono poderia favorecer todas as partes, garantindo uma nova e relevante fonte de recursos para o desenvolvimento verde, e ativando as maiores fontes de mitigação climática desses países.

Pagamentos de carbono podem beneficiar a todas as partes envolvidas no que se refere ao clima e ao desenvolvimento, mesmo em países onde o valor potencial das soluções climáticas naturais é bem menor em relação do PIB. Muitos países já firmaram compromissos climáticos condicionais sobre desmatamento, comprometendo-se a reduzir as emissões em parte por eles mesmos, e de forma mais significativa com a ajuda de recursos externos (ex.: REDD+). Soluções climáticas naturais somam um quarto da mitigação a que esses países se comprometeram – uma parcela maior em relação a suas emissões do que outros setores.

Figura 5. Disponibilidade de soluções climáticas naturais em relação do PIB, por país.

Atualmente, a maior necessidade para soluções climáticas naturais é o financiamento, incluindo aquele na forma de pagamento por resultados para a redução de desmatamento (ex.: REDD+). Algumas conquistas importantes foram feitas em 2019, incluindo a aprovação do Parâmetro para Florestas Tropicais da Califórnia, a introdução dos pagamentos por resultado no âmbito do Fundo Verde para o Clima, e os novos acordos para pagamentos por resultados com Gabão, Moçambique, e Gana. Mas em 2019 também vimos negociadores das Nações Unidas ficarem aquém no que se refere às regulamentações do comércio internacional de carbono. Vamos esperar que 2020 amplie os sucessos de 2019 e corrija seus fracassos, de forma que as soluções naturais possam cumprir seu potencial na prevenção de mudanças climáticas.