2019
jul

Como o Acordo Comercial UE-Mercosul afetará as florestas brasileiras? Q&A com João Shimada

Quando a União Europeia anunciou um monumental acordo com o maior bloco comercial da América Latina, Mercosul em 28 de junho, líderes políticos dos dois lados do Atlântico celebraram a decisão. Mas os críticos afirmam que o acordo poderia estimular a degradação ambiental em países como o Brasil, onde a produção de carne e a agricultura são acusadas por elevar as taxas de desmatamento.  O pesquisador associado do EII João Shimada, com mais de 20 anos no agronegócio brasileiro, agora trabalha para promover o desenvolvimento de estratégias de baixas emissões em comunidades rurais pela Amazônia. Ele diz que se implementado apropriadamente o acordo poderia ajudar a aumentar os incentivos para os produtores se envolver em práticas sustentáveis. Ele nos concedeu essa entrevisa de sua residência em Cuiabá, Mato Grosso.

O que é o acordo?

Os líderes da UE e do Mercosul anunciam um importante acordo comercial em 26 de junho na Cúpula do G20 em Osaka, Japão. Foto via Wiki Commons.

Em termos gerais, a UE se comprometeu a reduzir as tarifas de importação de cerca de 97% dos principais produtos agrícolas do Mercosul. Países do Mercosul concordaram em reduzir as tarifas em cerca de 91% das importações da Europa. Estes incluindo automotivos. O acordo ainda necessita ser aprovado pelo Parlamento Europeu e pelos Congressos nos quatro países do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai). Não é fácil prever quanto tempo isso levará e qual será o resultado final. Produtores europeus já estão planejando formas de defender seus mercados, bem como as indústrias do Brasil e Argentina.

Como o acordo poderia afetar os esforços para reduzir o desmatamento?

Existem aqueles que argumentam que o aumento do comércio internacional pode ajudar a frear o desmatamento através de regulamentos mais restritivos exigidas pela UE. Isto não é totalmente verdadeiro. O consumo doméstico responde por cerca de 80% da produção de carne no Brasil, então qualquer restrição que a Europa coloque em vigor terá apenas um impacto limitado sobre as florestas. Além disso, a carne exportada para a Europa viria do sul do Brasil, onde as grandes companhias com presença nacional e internacional estão instaladas. A carne produzida na Amazônia está em sua maioria sendo vendida domesticamente e para países na Ásia que tendem a não se preocupar tanto sobre a origem. Mas em geral eu acredito que a participação no mercado da UE poderia ter um impacto positivo no campo.

Você poderia detalhar?

Nos últimos dois ou três anos o Brasil tem assistido uma crescente radicalização entre os produtores, especialmente em oposição às questões ambientais.  Este é o mesmo setor que foi crucial para trazer Bolsonaro ao poder, então seu governo mante-se muito atento às suas demandas.

Mas entre os produtores, existem dois distintos segmentos, um mais agressivo em sua oposição aos assuntos ambientais, e outro, mais alinhado com os mercados internacionais, que é mais moderado.  Foi este último grupo que convenceu a administração Bolsonaro a permanecer no Acordo Climático de Paris, apesar dos sinais preliminares que o Brasil estava considerando a sua retirada. Este mesmo grupo também preveniu o governo sobre a extinção do Ministério do Meio Ambiente. Ambos movimentos poderiam prejudicar a posição internacional brasileira com seus parceiros comerciais.

Este acordo pode ganhar o apoio dos moderados e fortalecê-los politicamente se ele conduzir a um aumento geral no comércio e uma redução das barreiras. Sob estas condições, tenho certeza que alguns condicionantes ambientais poderiam ser vistas como aceitáveis.  Contrariamente, se o acordo vier carregado de regulamentos ambientais punitivos que dificultem o comércio, então poderíamos ter como efeito o fortalecimento da ala radical e levaria mais moderados para o seu lado.

Você mencionou um aquecimento na hostilidade para as questões ambientais. Quais são algumas outras barreiras para reduzir o desmatamento?

A primeira coisa a se entender é que existem múltiplos fatores promovendo o desmatamento. Uma delas é a especulação imobiliária. Um hectare de área de floresta é de 5 a 10 vezes mais barato que uma área de pastagem, e 10 a 30 vezes mais barato que uma área usada para plantar soja. Também, nos últimos 20 anos os conservacionistas criaram elevadas expectativas sobre o retorno econômico que a preservação das florestas poderia trazer. Estes até agora não se realizaram, e isso gera uma frustração entre os proprietários de terras. E finalmente, quando nós falamos sobre desmatamento, nós estamos falando sobre a fronteira. Não existem rodovias, não existe assistência médica. Você não pode apenas pegar seu telefone e chamar a polícia. Não é um lugar fácil para se estar.

Você tem uma conexão pessoal com este trabalho, não é verdade?

Minha família está envolvida com desmatamento a três gerações. Meu avô imigrou do Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Quando ele chegou no Brasil, ele fez oque a maioria dos recém-chegados fez, ele desmatou a terra para plantar café. Meu pai então migrou para o norte do Brasil para plantar café. E na minha vez, eu mudei para o Mato Grosso para desmatar um pedaço de terra para plantar pasto. Então este é meu histórico. Muito parecido com os Estados Unidos um século atrás, pessoas no Brasil ainda continuam procurando as fronteiras em busca de oportunidades.

Mas você continua otimista sobre o futuro das florestas brasileiras?

Acho que sim. Nós precisamos olhar para isso estrategicamente. Em um evento semana passada, eu lembrei a plateia que nós estamos no meio de uma enorme transformação na agricultura promovido pela tecnologia. Nós estamos no olho do furacão … que irá modelar como a agricultura será nos próximos 20 a 30 anos. E neste processo, muitos produtores empregando práticas insustentáveis sairão do negócio, por causa da falta de acesso ao mercado, ou pela falta de acesso ao crédito ou licenciamento. Nosso trabalho é tentar moldar este futuro.

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