2020
Maio

Alimente seu vizinho – Resolva grandes problemas

Existe um ditado na Malásia que diz: “Kais pagi, makan pagi. Kais petang, makan petang”. Em tradução livre: “O que você junta de manhã é o suficiente apenas para a manhã, e o que você junta à noite é o suficiente apenas para aquela noite.”

O ditado se torna especialmente relevante neste momento em que a Malásia entra no segundo mês de quarentena para limitar a disseminação do coronavírus, deixando a camada mais pobre da população relegada à própria conta.

Mas ela também contém lições para o iminente desafio da mudança climática. Em ambos os casos, estratégias que não começam com colaboração e investimentos para trazer comida para a mesa e tirar pessoas da pobreza não serão bem-sucedidas.

Eu já sabia, logo após o primeiro ministro da Malásia anunciar a Ordem de Controle de Movimento por 14 dias (MCO, da sigla em inglês, também conhecido como confinamento), no início de março, que ela duraria por mais de 14 dias. Minha família e eu, portanto, começamos as nos preparar para uma estadia prolongada em casa. Nós não sabíamos o que esperar em termos de acesso a itens essenciais. Compramos mais comida enlatada do que normalmente fazemos, e estou orgulhoso de dizer que não estocamos papel higiênico.

Por volta de 23 de março, meus canais de mídia social foram inundados por histórias e mais histórias de pessoas que não tinham mais dinheiro para se manter em casa. Muitos que dependiam de ganhos diários continuaram a se aventurar para vender comida ou vegetais nas ruas, ou outros bens e serviços, violando em grande parte o MCO. Todos estavam sofrendo – de forma mais severa as mães solteiras, os idosos e aqueles com habilidades limitadas.

Ansioso por ajudar, comecei com uma doação a um fundo criado por um membro do parlamento para distribuir alimentos dentro da sua base eleitoral (onde também sou eleitor). Então, mais ou menos na mesma época, meus colegas do conselho de uma organização local sem fins lucrativos concordaram por unanimidade em mobilizar nossas equipes para comprar e distribuir alimentos para 20 aldeias rurais. Mais tarde, combinei recursos com ex-colegas de classe para comprar e distribuir pacotes de alimentos para cem famílias.

Um homem recebe comida perto de Kota Kinabalu, em Sabah, na Malásia, entregue para ajudar os moradores locais durante o surto de coronavírus.

Foram esforços modestos, mas por meio deles eu percebi que nossa capacidade de administrar essa pandemia depende em grande parte da capacidade dos mais vulneráveis ​​de respeitar o MCO, pessoas que entendem as consequências legais e riscos de saúde ao se aventurar nas ruas, mas que o fazem porque precisam colocar comida na mesa.

Na mesma direção, nossa habilidade de enfrentar a crise climática dependerá da capacidade das famílias nos países em desenvolvimento – muitos deles nos trópicos – continuarem a colocar comida em suas mesas.

Para manter o aquecimento global abaixo de 1,5ºC, o mundo está exigindo das nações com florestas tropicais uma mudança em seus modelos desenvolvimento. Pede que elas mantenham suas florestas de pé e esqueçam o modelo utilizado até hoje pelos países em desenvolvimento: trocar recursos naturais por ganhos socioeconômicos. Mesmo os países que mais defendem ações climáticas seguem trocando seus recursos naturais por desenvolvimento. Apesar disso, o mundo implora às nações com florestas tropicais que troquem esses modelos por caminhos experimentais.

Um desses experimentos é alavancar os mercados para despoluir as cadeias produtivas, desassociando-as do desmatamento. E, em certa medida, os mercados e as empresas têm feito esforços nessa direção. Muitas empresas assumiram compromissos públicos com cadeias produtivas com desmatamento zero.

O pedido para intervenções como essa vem principalmente da ponta final das cadeias produtivas globais, mas seu custo fica sobretudo com as nações que estão no início dessas cadeias – em especial os países tropicais com um grande número de pequenos produtores de commodities.

Tendo em vista o alto nível de conexão global que temos hoje, bem como os compromissos assumidos pelos maiores negociadores no mercado de commodities para acabar com o desmatamento em suas cadeias de suprimentos até 2020, já deveríamos ter visto uma grande redução nas taxas de desmatamento. Bem, 2020 chegou e as taxas de desmatamento continuam alarmantes. Sabemos que 3.6 milhões de hectares de floresta primária foram perdidos em 2018 – uma área equivalente ao tamanho da Bélgica. O total de perda de cobertura vegetal em 2018 atingiu um pico recorde de 12 milhões de hectares. E relatórios recentes sugerem que o desmatamento na Amazônia atingiu novos patamares nos primeiros dois meses de 2020. Portanto, é evidente que, apesar dos compromissos bem-intencionados, há ainda muito a se fazer para achatar a curva de desmatamento.

Uma razão para isso é o temor, pelos países tropicais, de que o custo de manter seus ativos naturais bloqueados seja alto demais. Eles temem que o bloqueio de seus bens comprometa o desenvolvimento humano, a capacidade de levar comida às mesas das pessoas em suas terras.

Assim como no caso da pandemia de coronavírus, o fator determinante em nosso sucesso ou fracasso em lidar com as mudanças climáticas estará no desempenho das camadas mais vulneráveis da sociedade. Existem dois caminhos a seguir. A comunidade climática pode continuar a impor padrões e expectativas elevadas de que as nações de florestas tropicais devem fazer mais – sem nenhum apoio – simplesmente porque essa é a coisa certa a fazer. Ou… Pode aceitar, da mesma forma que eu aceitei durante esta pandemia, que o melhor caminho para nos ajudar a mitigar a mudança climática, globalmente, é cuidar dos nossos vizinhos em sua luta.  

E alimentar nosso vizinho, no contexto de soluções para mudanças climáticas, é mais fácil de falar do que de executar.

Em vez de fazer demandas sem consulta, as nações desenvolvidas e os atores do mercado devem partir das realidades das regiões e setores aos quais estão impondo essas demandas. Eles devem perceber que sempre haverá uma jornada árdua em direção a esses padrões e expectativas, e devem investir nesses caminhos antecipadamente. Promessas de investimentos ao final da jornada terão pouco apelo. As pessoas não precisam de alimento para o futuro. Elas precisam de alimento agora.

Da mesma forma, eles devem identificar e investir rapidamente em regiões e setores que demonstraram interesse genuíno em trabalhar as mudanças climáticas e que demonstraram desde o início disposição para ações positivas. E devem investir e contribuir com plataformas que reúnam as diferentes partes interessadas no nível local para compartilhar a responsabilidade de assumir compromissos e executar ações de campo, onde forem relevantes.

Temos hoje várias regiões tropicais que deram significativos passos em direção a um caminho de desenvolvimento de baixas emissões. Infelizmente, a jornada delas é solitária. O reconhecimento que recebem é escasso, aliado a pouco ou nenhum investimento.

Eu sinceramente espero que as lições aprendidas nesta pandemia não se percam quando voltarmos à nossa luta contra as mudanças climáticas. Por enquanto, se você puder, cuide de seus vizinhos. Todos seremos melhores por isso. Perceba que todos estamos conectados e que a conexão só pode permanecer forte se nós cuidarmos dos elos mais frágeis.

Aplique o mesmo às mudanças climáticas. Alimente o seu vizinho.

Este artigo apareceu originalmente em Mongabay

You are donating to : Greennature Foundation

How much would you like to donate?
$10 $20 $30
Would you like to make regular donations? I would like to make donation(s)
How many times would you like this to recur? (including this payment) *
Name *
Last Name *
Email *
Phone
Address
Additional Note
paypalstripe
Loading...