2020
ago

Incêndios devastam plantações em propiedades de mulheres no estado do Acre

Um incêndio florestal ao norte da cidade de Rio Branco, no estado do Acre, na Amazônia brasileira, consumiu plantações pertencentes a várias mulheres produtoras envolvidas em uma plataforma de produção online lançada recentemente, criada em resposta ao COVID-19.

O incêndio, supostamente causado por fazendeiros vizinhos que estavam limpando suas pastagens com fogo, destruiu plantações e devastou a única fonte de renda que estas mulheres e suas famílias dependem.

“O fogo veio e queimou tudo, todas as minhas plantações, tudo. Sem água, meus filhos e eu tentamos fazer um aceiro, mas o fogo nos atingiu ”, disse Jesuíta Alves, 56 anos, que trabalha como agricultora há 25 anos. Seu lote de dois hectares, junto com o de sua vizinha Maria Salomé, foi totalmente destruído pelas chamas.

Chamas cercam a fazenda Jesuíta Alves, 56, no estado do Acre, na Amazônia brasileira. Os filhos de Alves podem ser vistos no vídeo tentando criar um aceiro, pois a fumaça e as cinzas cobrem a área.

Jesuíta planeja relatar o incidente às autoridades locais. “O que mais posso fazer”, disse ela.

O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, anunciou recentemente a proibição de incêndios na Amazônia por 120 dias. Membros do exército local, a quem o governo recorreu para ajudar na detecção e combate a incêndios na Amazônia, uma vez que o COVID interrompeu as atividades regulares de fiscalização, acabaram chegando para combater as chamas na área de Jesuíta.

O FeiraSISA, ou Mercado SISA, foi lançado em junho de 2020, no momento em que o impacto total da pandemia do Coronavírus estava sendo sentido nas comunidades e na economia de Rio Branco e seus arredores. As ferias livres, que são a única fonte de renda para muitos pequenos produtores, foram rapidamente fechadas, estimulando as mulheres produtoras a construir a plataforma online em resposta a situação que se encontravam.

As mulheres produtoras da zonas rurais do Brasil contribuem com quase metade da renda familiar e são fundamentais para estratégias de desenvolvimento de baixas emissões e inclusão social em regiões como o Acre, que nos últimos anos foi pioneiro em abordagens para proteger as florestas em pé, enquanto faz sua economia crescer.

SISA refere-se ao Sistema de Incentivos para Serviços Ambientais do Acre, creditado por ajudar o estado a se tornar uma das poucas jurisdições mundiais a receber financiamento internacional para pagamento por desempenho por seu sucesso passado, na redução de emissões relacionadas ao desmatamento tropical.

Apoiado pela Companhia de Desenvolvimento de Serviços Ambientais (CDSA) do Acre e pelo Earth Innovation Institute (EII), a FeiraSISA é a primeira plataforma online desse tipo no Brasil, utilizando tecnologias existentes para conectar produtores sustentáveis ​​a consumidores isolados pelo vírus e ávidos por acesso a produtos frescos e outros itens alimentares.

Pouco depois de seu lançamento, os membros do grupo relataram um aumento nas vendas por meio da plataforma, à medida que os pedidos online ultrapassavam rapidamente a capacidade. Antes dos incêndios desta semana, as mulheres estavam trabalhando com o CDSA no estabelecimento de uma instalação de processamento central, onde os pedidos pudessem ser recebidos e entregues.

As agricultoras que fazem parte da plataforma FeiraSISA exibem parte da sua colheita.

“A maioria dos produtos disponíveis na plataforma foi queimada”, disse Elsa Mendoza, gerente do programa EII Acre, que trabalhou em estreita colaboração com as mulheres no desenvolvimento e lançamento do FeiraSISA. Ela descreveu o clima como de “tristeza e desespero”, observando que o CDSA está procurando maneiras de apoiar as mulheres após a perda de seus produtos.

Um período de seca prolongado na região amazônica tornou as condições ainda mais voláteis com o início da temporada de incêndios no Brasil. Só neste ano o país detectou um recorde de 516 grandes incêndios em 27 de agosto, segundo análise de dados de satélite do Projeto de Monitoramento da Amazônia Andina (MAAP). A maioria dos incêndios foi feita ilegalmente para limpar terras para plantações ou pastagens.

A fumaça dos incêndios também está agravando as condições respiratórias, causadas pelo Coronavírus, para as pessoas na região.

Os incêndios que atingiram a propriedade da Jesuíta são emblemáticos do papel que os agricultores de toda a Amazônia ocupam como instigadores e de vítimas dos incêndios. “Há anos que trabalhamos aqui, tentando conservar a nossa terra, alguém vem e ateia fogo”, disse ela. “Todos os anos aqui tenho este mesmo problema.”

Fields torched by the flames are all that remain of Alves’ small, 2ha plot.

O diretor executivo e cientista sênior do EII Daniel Nepstad, que passou grande parte de sua carreira de trinta anos pesquisando incêndios na Amazônia, diz que os incêndios são um desafio adicional para os agricultores que tentam manter práticas sustentáveis.

“Este trágico acidente ilustra como a ameaça perene de fogo desestimula os agricultores a investir em plantações de árvores e produção de vegetais, que são uma alternativa mais sustentável do que  a pecuária extensiva”, ele disse, acrescentando que estratégias de longo prazo que envolvam pessoas na região são necessárias para mitigar a ameaça de fogo.

A pecuária  é reconhecida como um dos principais impulsionadores da perda de florestas na Amazônia, embora “a produtividade da pecuária na Amazônia seja notoriamente baixa”, observou Nepstad em uma entrevista recente, na qual ele chamou a perda de floresta para áreas desmatadas para pastagem “ uma das piores desvantagens … do mundo. ”

As pequenas propriedades familiares como a de Jesuíta, representam cerca de 85% dos estabelecimentos agrícolas no Brasil, que é um dos principais exportadores de commodities, como soja e carne bovina, responsáveis ​​pelo desmatamento contínuo e pelo aumento da ameaça de incêndio. As pequenas propriedades fornecem mais de 70% dos alimentos consumidos no mercado interno, pois o agronegócio de comodities é focado principalmente na exportação.

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